2/03/2026

Este artigo analisa a relação entre mobilizações sociais contemporâneas e crises democráticas. Costurando de forma panorâmica achados e argumentos de pesquisas que realizamos nos últimos dez anos, o texto explora cinco dimensões da crise democrática (econômica, política, social, epistêmica e ambiental) e nove tendências das mobilizações contemporâneas, a saber: (1) A volta para o futuro, (2) A centralidade de performances, (3) O protagonismo individual e customizável, (4) O sequestro da ação do outro, (5) A desinformação como parte do repertório de confronto, (6) O jogo de luz e sombra na mobilização social, (7) A aceleração temporal dos protestos e o presentismo, (8) A centralidade de agências automatizadas, e (9) A importância de observar gambiarras. Argumenta-se que mobilizações têm tido consequências ambivalentes para a democracia e como suas formas e configurações dialogam com elementos das crises.

Leia o artigo de Ricardo Fabrino Mendonça em https://www.scielo.br/j/ln/a/CBLwW5vCPdCLg8bmc6cKSdh/?format=pdf&lang=pt

Este artigo discute o conceito de polarização social, dividindo o Brasil contemporâneo em polos que se identificam com Lula ou Bolsonaro. Com base na hipótese de que os desafios à consolidação democrática do Brasil têm impacto nesse contexto, analisamos cinco processos sócio-históricos, tendo como marco a fundação da Nova República. São eles: a constituição e as reformas do sistema político institucional, a mudança do contexto econômico nacional, as mudanças estruturais na sociedade brasileira, a estrutura da mídia tradicional e o surgimento de novas tecnologias de informação, e a mudança do contexto político internacional. A análise apoia a hipótese de que o fenômeno Bolsonaro é um sintoma que aprofunda, e não a origem, da polarização contemporânea.

Leia o artigo de Adriana Escosteguy-Medronho em https://www.scielo.br/j/ln/a/x4Jn86C8pCJHZdzqbzd7Kwz/?format=pdf&lang=pt

Entre 2012 e 2025, a democracia brasileira enfrentou crises que testaram os pilares do presidencialismo, do sistema de justiça e do federalismo. Este artigo analisa como essas tensões produziram mudanças institucionais e revelaram a resiliência do regime. O argumento central é que a compreensão da democracia sob estresse exige articular três dimensões: polity (as regras e instituições que estruturam o regime), politics (a competição política e os conflitos entre atores) e policy (as decisões e resultados das políticas públicas). As crises políticas entre 2012 e 2025 não apenas tensionaram, mas também fortaleceram as instituições, ao gerar adaptações duradouras e aprendizado institucional. A interação entre polity, politics e policy remodelou o sistema político formal e informalmente, revelando resiliência democrática mesmo em cenários de risco de golpe de Estado. Esse modelo interpretativo contribui para estudos comparados sobre como democracias sob estresse podem resistir e se transformar.

Leia o artigo de Cláudio Gonçalves Couto e outros em https://www.scielo.br/j/rsocp/a/g8fC5HNNbzptNKqnHfMWZMn/?format=pdf&lang=pt

Conceito de crescente popularidade no debate público e acadêmico brasileiro, o bolsonarismo tem sido objeto de vários trabalhos e tema de importantes interpretações do Brasil contemporâneo. Este artigo pretende analisar os contornos e os pressupostos do termo a partir da análise de um elemento a ele frequentemente atribuído: sua dimensão antissistêmica. Para tal, analisamos criticamente dois dos mais influentes livros sobre o bolsonarismo, de autoria de Marcos Nobre e Rodrigo Nunes, que privilegiam seu fundamental antagonismo ao sistema político brasileiro (e ao “establishment” em geral). A partir de uma análise do conceito de bolsonarismo construído pelos autores, argumentamos que tal construção conceitual em torno do eixo sistema-antissistema sublima um dos seus elementos centrais, a radicalização autoritária da direita tradicional, ao pressupor (a) uma reiteração do dualismo Estado-sociedade (típico de longeva tradição do pensamento político brasileiro), (b) uma sobreposição de diferentes atores do campo das direitas (ultradireita, direita tradicional, nova direita, bolsonaristas), e (c) uma importação pouco mediada de conceitos e contextos relativamente exógenos ao caso brasileiro.

Leia o artigo de PEDRO LUIZ LIMA e JORGE CHALOUB em https://www.scielo.br/j/ln/a/5N5RcqSrn8VwkQyJJtdcf3c/?format=pdf&lang=pt

Este artigo faz uma reflexão a respeito da experiência política brasileira, entre os anos 2019 e 2022, por meio da utilização da metáfora da destruição como possível recurso analítico. Parte de uma crítica à lógica conceitual e, como alternativa, propõe uma fenomenologia da destruição, voltada à detecção e à apresentação dos fatores de desfiguração impostos à sociedade brasileira, no período em questão. A hipótese de fundo é a de que o experimento em questão ultrapassou a lógica estrita dos regimes políticos e se impôs como potência de desfiguração da forma do social.

Leia o artigo de Renato Lessa em https://www.scielo.br/j/ln/a/Dx7HhyW3L6dDyzvLP6LFWpn/?format=pdf&lang=pt

Este artigo é um convite para refletir sobre a ultradireita além da autocomplacência. Os autores desafiam a percepção convencional da ultradireita como algo completamente separado da política e da sociedade dominante, argumentando que há uma sobreposição substancial, especialmente em termos de patriarcado, racismo e neoliberalismo. No entanto, a direita inova e evolui, sendo essencial compreender essas mudanças. A segunda seção do artigo argumenta que algumas das formas mais avançadas de ativismo de direita estão atualmente emergindo no Sul Global. A liderança do presidente argentino Javier Milei é um caso notável, pois combina a interseccionalidade de direita, uma versão conservadora da crítica à captura das elites. A conclusão retorna à ideia de que, em múltiplos níveis significativos, não existe uma exterioridade pura entre a ultradireita e o restante de nós. Mesmo a “nova” retórica de Milei radicaliza tendências já presentes nos principais corredores da política e da academia.

Leia o artigo de Paulo Ravecca e outros em https://www.scielo.br/j/ln/a/N8r3MSysMmZ4FFtxMwP5tFf/?format=pdf&lang=en

Nas últimas duas décadas, muitos países latino-americanos vivenciaram tensões entre os ideais democráticos que colocaram o regime à prova. Apesar dos desafios, a maioria das democracias da região puderam reagir, de formas diferentes, a essas crises, conduzindo saídas institucionais como exemplos de resiliências. O objetivo deste artigo é analisar os riscos e as resiliências das democracias latino-americanas no período recente. A análise permitiu a organização em três grupos: o primeiro, composto por países que passaram por situações de resiliências, tais como as que aconteceram na Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Peru e Guatemala. O segundo grupo é composto por países com riscos, concretos ou latentes, e que despertam diferentes graus de preocupação com a democracia, como El Salvador, México e Argentina. Por fim, são analisados os países com claros sinais de rupturas, como são os casos da Nicarágua e da Venezuela. Essa categorização permite uma análise das diferentes dinâmicas em jogo nas democracias contemporâneas e dos desafios específicos que enfrentam.

Leia o artigo de Hugo Borsani e outros em https://www.scielo.br/j/ln/a/RDqcxC3b6LBScc9DXJV6Zkb/?format=pdf&lang=pt

O triunfo da tecnologia da informação é, sem sombra de dúvida, uma das transformações a pôr em xeque os arranjos democráticos, ameaçados hoje, entre outras coisas, pela violência coletiva virtual propiciada por máquinas algorítmicas especializadas em cálculos utilitários. Este artigo pretende sustentar, a partir do debate político corrente, como esse fenômeno concorre para a formação de circuitos de comunicação isolados, que impedem a política deliberativa de funcionar adequadamente, contribuindo, ainda, para a intensidade e simultaneidade da ocorrência do populismo nas democracias constitucionais contemporâneas, operando como um meio de enfraquecimento da representação tradicional e/ou de fortalecimento da representação direta. Leia o artigo de Raquel Kritsch e outros em https://www.scielo.br/j/ln/a/YCjjw5dbWtnTn9QCFqBmrxD/?format=pdf&lang=pt

A sociedade internacional globalmente expandida estabeleceu um padrão de Estado como critério central para sua adesão. O fim da Guerra Fria testemunhou uma democracia liberal ascendente, embora contestada, como um regime preferido e imaginado globalmente como tal. Nesse contexto, os processos de redemocratização vivenciados na América Latina em meio a profundas reorientações sistêmicas internacionais implicaram a renegociação de imaginários sociais regionais e locais, como, por exemplo, no caso brasileiro. Neste artigo, procuramos discutir a adaptação seletiva e criativa do Brasil no espaço de sobreposições entre os imaginários sociais globais, regionais e locais sobre o regime de governo desde a década de 1990. Por meio de uma abordagem teórico-empírica baseada na discussão sobre a construção de entendimentos compartilhados entre espaços sociais internacionais e domésticos, optamos por uma fundamentação teórica pragmática com o apoio da Escola Inglesa de Relações Internacionais, da filosofia crítica e da sociologia de Bourdieu para estudar o caso brasileiro. Com foco no governo Fernando Henrique Cardoso, propõe-se a análise qualitativa de documentos do período que problematizam a inserção externa do país a partir da interação com o imaginário social global e regional sobre a democracia liberal, com o apoio de uma revisão bibliográfica fundamentada em fontes secundárias especializadas.

Leia o artigo de Daniela Vieira Secches em https://www.scielo.br/j/cint/a/4fZ7N6p3BDPPgDZK8pVBpmd/?format=pdf&lang=en

A desigualdade econômica e a polarização política emergiram como fenômenos centrais nas democracias contemporâneas. Este artigo revisa a literatura que investiga uma teoria influente sobre essa relação: a de que o aumento da desigualdade econômica impulsiona a polarização política. Busca-se avaliar a robustez e as limitações desse postulado teórico a partir da análise de estudos publicados entre 2006 e 2023.

Leia o artigo de Pedro Mendes Rufino Barbosa e Arthur Zito Guerriero em https://www.scielo.br/j/rsocp/a/FGzFJNS9XP8V98kbRJJmsLx/?format=pdf&lang=pt